A VIRTUDE NAS CRIANÇAS

 

Recentemente, alguns estudos muito bons foram publicados sobre a vida interior das crianças. Gostaríamos de sublinhar aqui alguns aspectos relacionados às virtudes heroicas nelas:

i. a matéria, objeto da virtude, deve ser árdua ou difícil, acima das forças comuns dos homens;

ii. os atos devem ser realizados com prontidão e facilidade; 

iii. também devem ser realizados com certa alegria, que é a de oferecer um sacrifício ao Senhor;

iv. bem como com alguma frequência, quando surge a ocasião.

A primeira dessas condições mostra que o heroísmo nas crianças é relativo à sua idade, às suas forças, às condições que comumente possuem. Se alguns adultos são muito pequenos [espiritualmente], há crianças que, por suas virtudes, já são bem grandes. A Escritura diz: Ex ore infantium et lactentium perfecisti laudem: “Da boca das crianças e meninos de peito fizeste sair louvor” (Sl 8, 3). Foi isso que Jesus recordou aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas indignados ao ver crianças gritando no templo: “Hosana ao filho de Davi” (Mt 21, 16); e se, por vezes, a fé dos pequenos serve de exemplo para os grandes, o mesmo deve ser dito de sua confiança e amor.

Pensemos aqui o que pode e deve ser, de acordo com o pensamento e a vontade de Deus, o heroísmo de cada um nas várias idades da vida e nas mais diferentes condições. Deve-se tomar cuidado não apenas com o que se ensina, mas com o que se deve ensinar para alcançar a perfeição cristã. Não devemos nos esquecer de como as crianças entendem o heroísmo: na maioria das vezes, quando são heroicas, não sabem que são. A criança, quando é heroica, é simples, sem exibição.

Convém também assinalar que, na inocência da criança, o Espírito Santo não tem muito o que purificar antes de comunicar a sua luz de vida e sua força atrativa, mesmo existindo certas consequências marcantes do pecado original. Mas elas não foram agravadas pelos pecados pessoais reiterados. A criança em estado de graça, desde que não peque pessoalmente, está em contato direto com Deus que nela habita; sua alma é como um diamante, que ainda precisa ser lapidado, mas que praticamente não tem escórias. Das dolorosas purificações, necessárias aos pecadores na medida dos seus pecados, o Espírito Santo dispensa a criança que é fiel à graça no cumprimento dos deveres da sua idade. Então nós a vemos se elevar… ela se deixa levar, não mais por sua mãe, mas pela graça do Todo-Poderoso. Certamente, ainda é preciso deixar-se levar ou conduzir. A criança, menos cheia de coisas para sacrificar, mais livre, mais pura em suas intenções, com frequência sofre menos que o homem.

A espiritualidade precoce por vezes leva a frutos de heroísmo nas almas desses pequeninos, trazendo uma floração de graças; por vezes se constata um belo desabrochar dos dons na alma infantil, na medida em que a criança ainda não raciocina de modo metódico e complicado, e segue diretamente para a verdade, como que por intuição.

Nas melhores delas, nota-se uma relativa elevação das virtudes. Como a criança, consciente de sua ignorância e de sua fraqueza, é naturalmente inclinada a acreditar no que o seu pai e a sua mãe lhe dizem, a confiar neles e a amá-los, não apenas pelos benefícios recebidos, mas em si mesmos; do mesmo modo, ela é movida pela graça a crer na palavra de Deus, que lhe é transmitida pela sua mãe e, em seguida, pelo sacerdote que a instrui, ela é igualmente inclinada a confiar em Deus e a amá-lo por si mesmo. Ela vive à sua maneira as virtudes teologais (fé, esperança e caridade), antes de refletir sobre a necessidade das virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Nas orações da manhã e da noite, são atos de fé, esperança e caridade que pedimos delas. Se ela é fiel, a cada dia fará esses atos um pouco melhor.

Mais tarde, quando os sentidos despertarem, quando tiverem de entrar em contato com os homens, compreenderão a necessidade das virtudes morais que disciplinam as paixões e que regulam nossos relacionamentos com os outros de maneira justa e equitativa. Então, impressionadas com a importância dessas últimas virtudes de ordem humana, talvez dêem menos atenção às virtudes muito mais elevadas que unem nossas almas a Deus. Ao perderem sua ingenuidade infantil, poderão perder também algo de sua intimidade com o Senhor; não atentarão o suficiente, talvez, para o fato de que, quanto mais avançamos, se é preciso agir menos como criança diante dos homens, é preciso agir mais como criança diante de Deus, pelo progresso na vida de graça, pela consciência de nossa dependência do Pai celestial, pela intimidade cada vez maior a que Ele se digna nos chamar; finalmente, temos de entrar, por assim dizer, no seio de Deus: os eleitos no Céu estão em in sinu Dei (no seio da Deus), um pouco como o seu Unigênito que está in sinu Patris (no seio do Pai) (Jo 1, 18).

A simplicidade das crianças as ajuda a entrar nas alturas de Deus pela fé, pela esperança e pela caridade.